Cinema para todos: quando a acessibilidade deixa de ser discurso e vira experiência


Por Marcella Fazzio

Durante dois dias, Recife se tornou o centro das discussões sobre acessibilidade audiovisual no Brasil.

Promovido pela Ancine no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, o evento Cinema Brasileiro de Todos e para Todos reuniu realizadores, produtores, distribuidores, exibidores, pesquisadores, representantes do poder público e, principalmente, pessoas com deficiência para discutir um tema que vem se destacando no audiovisual brasileiro, como garantir que o cinema seja, de fato, uma experiência para todos.

Mas talvez o maior mérito do evento tenha sido justamente ir além das discussões, enquanto o primeiro dia foi dedicado ao debate, o segundo colocou a acessibilidade à prova. E essa escolha fez toda a diferença.

Primeiro, compreender. Depois, experimentar. O formato proposto para o evento foi extremamente feliz.

No primeiro dia, o seminário percorreu toda a cadeia do audiovisual. A abertura trouxe um panorama das políticas públicas e do papel da acessibilidade como direito cultural. Em seguida, a Ancine apresentou a evolução da regulação brasileira, os resultados obtidos desde a obrigatoriedade dos recursos acessíveis e o novo Guia de Boas Práticas em Acessibilidade no Cinema, que amplia o olhar para toda a jornada do espectador.

A programação também apresentou iniciativas desenvolvidas no Mercosul por meio da RECAM, demonstrando que a cooperação internacional vem fortalecendo a produção e a circulação de obras acessíveis na América Latina.

Na sequência, um dos momentos mais ricos do encontro foi a mesa sobre a produção dos recursos de acessibilidade, que utilizou O Agente Secreto como estudo de caso. Liliana Tavares, Carlos de Oliveira e Alisson Filipe mostraram os bastidores da construção da audiodescrição, da Libras e da legendagem descritiva do filme, revelando um processo que envolveu consultores cegos e surdos, diálogo constante com a produção e um cuidado especial com a preservação da identidade cultural pernambucana.

Na mesa de Distribuição e Exibição, Liliana Tavares, (COM Acessibilidade), Bernardo Lessa (Vitrine Filmes), Túlio Rodrigues (Cinema da Fundação) e eu tivemos a oportunidade de discutir como cada elo da cadeia interfere diretamente na experiência da pessoa com deficiência.

Falamos sobre planejamento, comunicação acessível, sessões com recursos abertos, formação de público e, principalmente, sobre a responsabilidade compartilhada entre produtores, distribuidores e exibidores. Porque acessibilidade não acontece em uma única etapa, ela acontece em cadeia.

O segundo dia trouxe aquilo que nenhuma palestra consegue ensinar. Depois de um dia inteiro discutindo conceitos, legislação, produção e boas práticas, veio a parte mais importante, assistir aos filmes.

O público acompanhou a exibição de Moon e Buenos Aires com audiodescrição, Libras e legendagem descritiva abertas na tela.

A proposta era simples, vivenciar a experiência e ao final da sessão, um debate com o público, a diretora do longa e representantes da agência para ouvir quem mais importa nesse processo, as pessoas que utilizam os recursos de acessibilidade. E foi justamente nesse momento que o evento atingiu seu maior objetivo.

Os comentários do público foram muito delicados ao abordar a falta de qualidade dos recursos exibidos, refletindo o que falamos há tempos aqui na MAV, a acessibilidade está sendo produzida, mas a qualidade do recurso, muitas vezes não atinge seu objetivo principal, que é traduzir a obra para as pessoas com deficiência.

Pessoas cegas apontaram dificuldades relacionadas à mixagem da audiodescrição, que em alguns momentos era encoberta pela trilha sonora do filme, também surgiram observações sobre a necessidade de descrições mais ricas, capazes de traduzir melhor elementos da cultura pernambucana presentes na narrativa.

Participantes surdos chamaram atenção para diferenças de qualidade entre as janelas de Libras, destacando aspectos relacionados à expressividade, ao tamanho da janela e à naturalidade da interpretação.

Essas observações não diminuem a importância da iniciativa, pelo contrário, são elas que justificam sua existência, porque produzir acessibilidade apenas para cumprir uma exigência legal nunca será suficiente e por isso é tão importante escolher quem vai produzir os recursos.

Talvez um dos momentos mais simbólicos do evento tenha sido ver a troca da diretora do filme com o público e o reconhecimento de que a acessibilidade faz parte do filme, imagino essa experiência mudará sua forma de trabalhar nos próximos projetos.

Esse talvez seja um dos maiores aprendizados do seminário, a acessibilidade não deve ser entregue ao diretor pronta, ela deve ser construída junto com ele, porque ninguém conhece melhor uma obra do que quem a criou.

E ninguém melhor do que o próprio realizador para validar se aquela tradução continua transmitindo exatamente a experiência que imaginou para seu público.

Recife deixou um recado importante, o evento mostrou que discutir acessibilidade já não é suficiente, precisamos experimentá-la, ouvir quem utiliza os recursos, propor que diretores vivenciem suas próprias obras por outros olhares.

E precisamos entender que produzir acessibilidade é tão importante quanto produzir fotografia, montagem, som ou direção de arte, porque, no fim, o objetivo nunca é apenas o cumprimento da lei, mas garantir que todas as pessoas tenham acesso à mesma história.

E esse é um compromisso que pertence a toda a cadeia audiovisual.

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