Acessibilidade em movimento: o que Brasil e Estados Unidos podem aprender um com o outro

Por Rafael Parlatore

Uma análise da MAV, a partir de sua experiência no mercado de acessibilidade audiovisual no Brasil e nos Estados Unidos.

Ao longo de nossa trajetória, vimos a acessibilidade sair de uma conversa restrita a poucos profissionais e se tornar uma exigência presente na televisão, no cinema e, cada vez mais, no ambiente digital. É uma mudança importante, que merece ser celebrada. Mas ela também revela uma diferença decisiva entre cumprir uma regra e entregar acesso real.

A experiência da MAV no Brasil e nos Estados Unidos nos ensinou que a legislação é essencial para abrir portas. Ela estabelece direitos, cria obrigações e desloca o mercado. No entanto, uma lei, sozinha, não assegura qualidade. Para que a acessibilidade aconteça de verdade, é preciso haver critério técnico, fiscalização, escuta ativa da comunidade e entendimento de que pessoas com deficiência são público, consumidores, famílias, comunidades e cidadãos com direito à informação, à cultura e ao entretenimento.

Antes da obrigação, o foco já era o usuário

Começamos a prestar serviços de closed caption em 1997, muito antes de existir uma obrigação legal para esse recurso no Brasil. Um dos primeiros clientes foi a TV Globo. Naquele momento, a expectativa da emissora era conquistar um novo público.

Para nós, acessibilidade sempre esteve diretamente ligada à qualidade. Naquele período, a estenotipia era a tecnologia que nos permitia entregar a precisão necessária para que uma pessoa surda acompanhasse um programa de forma plena. Não bastava colocar palavras na tela. Era preciso transcrever diálogos, sons, contexto, ritmo e informações relevantes de modo compreensível.

Essa visão também orientou a nossa participação nas discussões que levaram à ABNT NBR 15290, publicada em 2005. A norma trouxe referências para a acessibilidade em comunicação na televisão e definiu parâmetros técnicos de qualidade. O princípio era simples: se a legenda tiver erros recorrentes, atrasos ou omissões, ela pode estar presente formalmente, mas não entrega acessibilidade de fato.

Em 2006, a Portaria nº 310 do Ministério das Comunicações aprovou a Norma Complementar nº 01/2006 e instituiu um cronograma para os recursos de acessibilidade na televisão. O closed caption entrou em vigor de forma escalonada, a portaria foi publicada em junho de 2006 e os primeiros horários mínimos obrigatórios passaram a valer dois anos depois. A partir dali, a acessibilidade ganhou escala. E isso foi uma conquista.

A lei abre a porta; a qualidade define o acesso

A parte positiva de uma lei é indiscutível: ela cria consciência de que aquele direito existe e precisa ser respeitado. Sem a obrigatoriedade, provavelmente muitos conteúdos continuariam indisponíveis. Mas a lei também pode produzir uma resistência em quem a enxerga apenas como custo ou burocracia.

Nos primeiros anos da obrigatoriedade, algumas emissoras investiram, compraram equipamentos e se preocuparam com a qualidade. Ao mesmo tempo, outras começaram a procurar alternativas mais baratas para cumprir a regra. Tecnologias de reconhecimento de voz, ainda muito imaturas naquela época, passaram a ser usadas em contextos nos quais não entregavam a precisão necessária.

A consequência era previsível: havia closed caption no ar, mas muitas vezes não havia compreensão. A comunidade surda percebia isso rapidamente e, como sempre mantivemos diálogo com usuários e emissoras, recebíamos reclamações inclusive sobre serviços que não eram nossos. Repassávamos os problemas, discutíamos soluções e acompanhávamos o debate por qualidade.

Houve períodos em que organizações e pessoas da comunidade se mobilizaram, fizeram denúncias e ajudaram a pressionar o mercado. Isso trouxe resultados. Porém, em muitos casos, a reação vinha por medo de uma notificação, e não por compromisso com quem precisava do recurso. Com o tempo, quando a fiscalização se enfraquece ou fica difícil responsabilizar quem entrega um serviço ruim, cresce novamente a lógica do “está saindo legenda, então está bom”. Não está.

Uma legenda com falhas graves, atraso excessivo ou baixa precisão não dá acesso pleno. Ela cumpre uma aparência de acessibilidade. E esse é um problema que não se limita à televisão: ele aparece em diferentes mercados sempre que a obrigação é tratada como o objetivo final, e não como o ponto de partida.

Closed caption é mais do que um recurso para pessoas com deficiência auditiva

O closed caption é indispensável para pessoas com deficiência auditiva, mas seu valor vai muito além disso. Pense em quem está em uma academia, em um bar, em um consultório, em um aeroporto ou em qualquer ambiente onde não seja possível ouvir o som. Em todos esses contextos, a legenda permite acompanhar o conteúdo.

Além disso, o closed caption produz texto. Esse texto pode servir para indexação, pesquisa em vídeo, busca de trechos, organização de acervos e inúmeras aplicações digitais. Ou seja: ao investir em legenda de qualidade, uma empresa amplia acesso, melhora usabilidade e cria valor para seu próprio conteúdo.

Durante anos, tentamos levar essa conversa às emissoras e às áreas de marketing. A acessibilidade pode aumentar audiência. A pessoa que antes não assistia porque não conseguia acompanhar passa a consumir aquele programa. Ela compra produtos, usa serviços, vai ao médico, se diverte, viaja, vai ao cinema e toma decisões de consumo como qualquer outra pessoa. Ela não é um nicho abstrato: é público real.

Por isso, acessibilidade também pode ser entendida como oportunidade de negócio. Não se trata de vender um direito. Trata-se de reconhecer o valor de financiar, comunicar e ampliar um recurso que permite a mais pessoas consumir conteúdo e se relacionar com marcas.

Cinema: a conquista precisa chegar ao público

Em 2011, a MAV começou a desenvolver a ideia que daria origem ao MLOAD, inicialmente voltada para peças teatrais. Naquele momento, os recursos eram limitados, muitas vezes, a única alternativa era um intérprete de Libras posicionado em um dos lados do palco. A proposta era tornar a experiência mais completa e individual. Levávamos os equipamentos até o teatro para que cada pessoa acompanhasse o closed caption em uma tela na própria poltrona, com suporte adaptado ao porta-copos e haste flexível. A audiodescrição era oferecida por fone de ouvido. Hoje, o MLOAD atua exclusivamente no cinema. Mas essa origem deixa clara uma preocupação que sempre esteve com a gente, não só entregar qualidade, mas levar acessibilidade aonde ela ainda não existia. No cinema, a história tem pontos em comum. A exigência de recursos de acessibilidade trouxe uma mudança fundamental: pessoas que antes deixavam de ir ao cinema, ou iam sem conseguir compreender o filme por completo, passaram a ter a possibilidade de viver essa experiência cultural com mais autonomia.

A implementação, naturalmente, exigiu investimentos. Exibidores precisaram adaptar salas e adquirir equipamentos; distribuidores precisaram produzir materiais acessíveis. Em alguns momentos, esses processos avançaram em ritmos diferentes, os recursos já estavam prontos, mas as salas ainda não dispunham do equipamento necessário para disponibilizá-los. Isso gerou frustração e tensões no mercado.

Ainda assim, é importante não generalizar. Hoje há estúdios, distribuidores, exibidores e clientes que se importam de verdade. Eles querem entender quem é esse público, criar sessões, ouvir o retorno de pessoas com deficiência e melhorar a experiência. Esse é o tipo de relação que faz a acessibilidade evoluir.

A MAV produziu vinhetas de conscientização para informar o público de que existem aplicativos de acessibilidade no cinema. Algumas continuam sendo utilizadas por distribuidores. Esse trabalho é tão importante quanto produzir o recurso, não adianta a acessibilidade existir se as pessoas não sabem onde ela está, como funciona e se poderão contar com ela ao chegar à sala.

Quando um cinema se torna acessível, ele não recebe somente uma pessoa. Recebe seus amigos, sua família e uma comunidade inteira. São lugares que antes poderiam permanecer vazios e que passam a ser ocupados porque alguém finalmente consegue participar da experiência.

O que os Estados Unidos nos mostraram

Há mais de cinco anos, a MAV está estabelecida nos Estados Unidos. Essa presença permitiu observar diferenças de cultura, mercado e exigência, especialmente no broadcasting.

Lá também existem leis e exigências de closed caption. Mas uma diferença que percebemos logo no início foi a centralidade da qualidade. Antes de discutir preço ou formato de contratação, clientes perguntavam: “vocês têm testes de qualidade? Conseguem comprovar o desempenho?”. Com o VOX LOAD, nossa plataforma, apresentamos resultados documentados e também passamos por testes conduzidos pelos próprios clientes.

Essa postura revela algo essencial, o conteúdo audiovisual é um produto. Se o programa é bem produzido, mas uma parte da audiência não consegue compreendê-lo por causa de uma legenda ruim, o produto está incompleto. A acessibilidade não é um acessório separado da experiência; ela faz parte da qualidade do que está sendo entregue.

Existe também uma cultura mais forte de cobrança. Quando a qualidade não atende ao que se espera, há mais espaço para denúncia, fiscalização e penalização. Isso ajuda a formar um padrão de comportamento. A lei inicia a mudança, mas a cultura se consolida quando as pessoas entendem que descumprir a regra ou entregar algo ruim tem consequência.

Outro aspecto interessante é a visão comercial. Nos Estados Unidos, é comum encontrar recursos apresentados como “closed caption brought to you by…”, algo como “closed caption oferecido por” uma marca. Há diversas formas de associar empresas a iniciativas de acessibilidade: patrocínio, ativação, comunicação no vídeo e ações de relacionamento. Enquanto aqui essa ideia encontrou muita resistência, lá ela é encarada com mais naturalidade como forma de ampliar audiência e valorizar uma marca.

Também é muito comum ver televisão com closed caption em bares, aeroportos e outros espaços públicos. A legenda é compreendida como uma ferramenta útil para todos, não como um recurso que só deve aparecer quando alguém é obrigado a colocá-lo.

ASL, Libras e a escuta da comunidade

Nossa atuação nos Estados Unidos também trouxe aprendizados importantes para projetos em American Sign Language, o ASL. Ao conversar diretamente com a comunidade surda, entendemos uma exigência cultural muito clara, a pessoa diante da câmera precisa ser surda, ter a ASL como primeira língua e capacidade de performance. A direção também deve ser conduzida por uma pessoa surda, com a ASL como primeira língua.

Não é apenas uma questão de “saber sinalizar”. Há nuances linguísticas, culturais e interpretativas que fazem diferença na experiência final. Essa vivência nos ajudou a reforçar práticas que buscamos trazer para projetos de Libras no Brasil, como a participação de intérpretes surdos e consultoria da comunidade.

Não existe uma fórmula única para todos os projetos. Mas existe um princípio que deveria ser universal: quem utiliza a língua e vive aquela experiência precisa estar presente na criação, na revisão e nas decisões. Isso melhora a autenticidade, a compreensão e o resultado final.

Juntar o melhor dos dois mundos

O Brasil tem avanços regulatórios relevantes e é visto, em muitos contextos internacionais, como um país que se movimentou de forma importante na acessibilidade audiovisual. Isso deve ser valorizado. Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar a distância entre a norma e a qualidade efetivamente entregue.

Os Estados Unidos mostram uma cultura de qualidade, testes, fiscalização e valorização de mercado que pode inspirar o Brasil. E o Brasil oferece experiências de obrigação e ampliação de acesso que também podem inspirar outros países. A MAV atua justamente nesse ponto de encontro.

Somos uma empresa brasileira, o mercado é enorme e acreditamos que apesar de tudo conseguimos grandes avanços aqui. Seguimos entregando qualidade para os clientes que entendem esse valor e buscando ampliar essa consciência. Ao mesmo tempo, levamos nossas soluções para outros mercados e trazemos de volta aprendizados que possam contribuir aqui.

Acessibilidade não é favor. Não é um custo inevitável. É qualidade, audiência, cultura e direito. E, quando é feita com seriedade, torna produtos, negócios e experiências melhores para todos.da MAV, a partir de sua experiência no mercado de acessibilidade audiovisual no Brasil e nos Estados Unidos.

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